Notícias
Leia um conto
30/07/2009
O REENCONTRO
Cleci Silveira
Quando Olga entrou na igreja a missa já havia começado. Era uma celebração comemorativa ao dia das mães, organizada por uma escola de bairro. Ouvia-se um coral de vozes infantis, muito bem ensaiado, havia muitas flores, muita alegria e aquela inquietude, aquele murmurar, tão comum em locais onde se reúnem muitas crianças.
À procura do filho e da nora, Olga olhou para trás. E então o mundo parou, quando o jovem levantou a cabeça e a fitou com mesmo o olhar de outrora. Deixou-se cair no banco. Impossível, impossível - pensava - humanamente impossível. Depois, para si mesma, “meu cérebro não deve estar tão bem quanto eu pensava”.
Olhou à sua volta. Onde estavam as pessoas, o canto das crianças, a fala mansa do padre? Sentia-se levada, transportada a um mundo que já não era seu. A noite se transformava em dia, um sol poderoso, resto de uma manhã de verão.
Caminhava em uma cidade desconhecida. Era sábado. Viu-se atravessando uma avenida, surpreendeu-se com o movimento escasso de carros. Parou no canteiro central. Abaixo, viu os trilhos. Bondes? Ouviu ao longe o ranger metálico e logo o veículo amarelo estava em seu campo de visão. Por trás do vidro fronteiro, uniforme e quepe da mesma cor do coletivo, o motorneiro. Olga sentiu uma dolente saudade ao olhar o personagem que tão bem conhecera em outros tempos. Saberia o velho comandante quantos destinos traçara em suas idas e vindas, quantos restos de ilusão, quantos desenganos ficaram para sempre escondidos entre seus bancos de madeira? Após um longo suspiro saído do interior das entranhas de ferro, ele haverá de parar para ela.
Mas Olga não embarcará na mesma história. Sabe que lá dentro estará o jovem que olhou para ela na missa das mães. Ele será o amor maior de sua vida e deitará suas raízes, num tempo sem Dia das Mães, nem Dia dos Pais, muito menos dos Namorados. Um rapaz alto, de longas pestanas negras e cabelo louro à cadete, corte em grande voga na época. Por baixo dos cílios negros, um par de olhos claros, brilhantes, haverá de buscar os seus e ela estará perdida para sempre. E, naquela mesma noite, hão de se encontrar em um baile e não se largarão até o fim da festa.
Sabe também que aquele verão haverá de ser o melhor de sua vida, que as festas de fim-de-ano serão cheias de esperança e alegria, pois nada há que se compare à felicidade de um grande amor correspondido. Para ficar ao lado dele, renunciará ao veraneio. Trocará a brisa marinha pelas matinés de domingo, tardes escaldantes, a paixão sussurrada e o suor das mãos de ambos misturando-se em um único líquido orgânico e mágico, capaz de unir suas vidas para sempre.
Não unirá, entretanto, pois logo às primeiras chuvas de março, o amor do moço loiro por ela começará a perder fulgor e ânsia e, antes do inverno desvanecerá. E ela o buscará em vão pelas ruas, nos cinemas, nos bailes, nos bondes.
Muitos anos mais tarde, o reencontrará em uma festa. Os mesmos cílios longos caindo sobre os olhos claros, estes sem o brilho antigo. Ele não a reconhecerá e ela o observará de longe, calculando os estragos que o tempo causou no rosto amado. Mas os cabelos loiros estarão mais bonitos, com fios brancos acumulando-se nas têmporas e insuspeitados anéis que o corte antigo decepara.
Mais tarde, naquela mesma noite, alguém lhe dirá que não se trata somente de efeitos do tempo, mas de um mal que lhe rói o cérebro. E, não muito depois, em um dia de maio, lerá, no necrológico de um jornal, a notícia de sua morte.
- Mãe, mãe, vamos! A missa terminou!
Assusta-se e, ainda assombrada pelas recordações, quer, e ao mesmo tempo teme, olhar para trás. Em seu delírio, espera ver no rosto do jovem a destruição do rosto do velho, seu igual. Finalmente, vira a cabeça. Lá vai ele, abraçado à namorada.
Olga volta a ser ela, uma velha senhora segurando um neto pela mão, saindo de uma missa vespertina, em homenagem às mães.
Voltar