O TURISTA
conto de Cleci Silveira
Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneios e sem insulto
Passo da Cruz (Fernando Pessoa ─ poesias)
O homem subia a montanha com dificuldade. Ofegante, gotas de suor gelado descendo-lhe pelo rosto, agarrava-se com força à extremidade superior do cajado. Sentia-se exausto, arrependia-se de ter concordado com a empreitada sugerida pelo médico e planejada pela irmã. Não com a visita à ilha em si, era um lugar maravilhoso, com sua beleza agreste, a presença eterna do mar. Agradaram-lhe os passeios às ilhas próximas, as paisagens iluminadas pelo sol forte daqueles primeiros dias de agosto. Provara um vinho de sabor inesquecível, parido por uvas humildes nascidas e criadas em confinamentos, os chamados “currais” fechados por muros de rocha negra: o famoso Verdelho do Pico. Mas aquela subida ao ponto mais alto de Portugal era impossível para ele, faltava-lhe força física e emocional. “Será bom” - dissera o analista – “o esforço físico anestesia a alma”.
De súbito, seus olhos, que apenas olhavam para frente, migraram para as árvores que margeavam aquela primeira etapa de jornada. E se encheram de terror. Ela estava lá, com as mesmas vestes negras, os longos cabelos derramados sobre os galhos verdes.
O cajado caiu-lhe da mão e executou no ar uma espécie de bailado macabro, para depois empreender uma descida louca, atrapalhando os que subiam. O corpo todo a tremer, o homem gritava por socorro, que alguém o ajudasse.
À frente, caminhava a irmã ao lado do guia, que relatava algo sobre os perigos de trepar a montanha sem a companhia de um profissional. Voltaram-se ambos, assustados. Com gestos delicados, mas firmes, ela acalmou a triste figura, enxugou-lhe o rosto vermelho e suado, repôs os cabelos em desalinho, deteve a agitação convulsa dos braços. “Calma, silêncio que estão nos olhando. Já vamos descer”. E ele, baixinho: - não adianta, ninguém entende.